Sermão "A Bíblia", de Charles H. Spurgeon — Parte 1

Embora eu lhe escreva a minha lei em dez mil preceitos, estes seriam tidos como coisa estranha.
Oseias 8.12


Esta é a queixa de Deus contra Efraim. Inclinar-se para repreender as Suas criaturas que incorrem em erro não é uma prova irrelevante da Sua bondade. Curvar a Sua cabeça para observar assuntos terrestres é um grande argumento de Sua graciosa disposição. Se Ele quisesse, poderia cobrir-se com a noite como se ela fosse uma vestimenta. Poderia colocar as estrelas em torno do Seu pulso formando pulseiras e amarrar os sóis em torno de Sua testa como uma coroa. Poderia morar sozinho muitíssimo acima deste mundo, no sétimo céu, e olhar com calma e silenciosa indiferença para todos os atos de Suas criaturas. 

Ele poderia fazer o que os pagãos supunham que seu Júpiter fez — sentar-se em silêncio perpétuo, às vezes acenando com a sua terrível cabeça para fazer os destinos se moverem ao seu bel-prazer. Porém, Júpiter nunca pensava nas pequenas coisas da Terra, descartando-as de sua percepção, absorvido no interior de seu próprio ser, engolido para dentro de si mesmo. Ele vivia sozinho e retirado. E eu, como uma das criaturas de Júpiter, poderia me colocar à noite no topo de uma montanha, olhar para as estrelas silenciosas e dizer: “Vocês são os olhos de deus, mas não olham para mim. A sua luz é o presente de sua onipotência, mas os seus raios não são sorrisos de amor para mim. 

Deus, o todo-poderoso criador, esqueceu-me, sou uma gota desprezível no oceano da criação, uma folha seca na floresta dos seres, um átomo na montanha da existência. Ele não me conhece. Estou sozinho, sozinho, sozinho!”. Porém, não é assim, amados. O nosso Deus é diferente. Ele percebe cada um de nós! Não há um pardal ou uma minhoca que não se encontre nos Seus decretos. Não há uma pessoa em quem Seus olhos não estejam fixos. Nossos atos mais secretos são conhecidos por Ele. O que quer que façamos, suportemos ou soframos, os olhos de Deus ainda recaem sobre nós e estamos sob o Seu sorriso — porque somos o Seu povo. Ou debaixo de Sua fronte franzida — porque nos desviamos dele.

 

Ó, quão infinitamente misericordioso é Deus, que, olhando para a raça humana, não extingue sua existência com um sorriso! Vemos no nosso texto que Deus olha para o homem, porque diz de Efraim: “Embora eu lhe escreva a minha lei em dez mil preceitos, estes seriam tidos como coisa estranha”. Você percebe como Deus não afasta o homem com Seus pés quando vê o pecado deste homem? Ele não o agita pelo pescoço sobre o abismo do inferno até seu cérebro revirar e depois o larga para sempre. 

Em vez disso, Ele desce do Céu para arrazoar com as Suas criaturas! Ele argumenta com elas, coloca-se, por assim dizer, no nível do pecador, declara as Suas queixas e invoca Sua reclamação. “Ó Efraim, eu escrevi para vocês as grandes coisas da minha Lei, mas elas lhes foram como uma coisa estranha!” Meus amigos, venho aqui esta noite a serviço do Senhor, para lhes suplicar, como embaixador de Deus, para atribuir pecado a muitos de vocês; para colocar isso em seu coração pelo poder do Espírito, para que vocês possam estar convencidos do pecado, da justiça e do julgamento vindouro. O crime que lhes imputo é o pecado que o texto expõe. 

Deus escreveu para vocês as grandes coisas de Sua Lei, mas elas lhes foram como coisa estranha! É a respeito desse livro abençoado, a Bíblia, que eu quero falar esta noite. Aqui está o meu texto — esta Palavra de Deus. Aqui está o tema do meu discurso, um tema que exige mais eloquência do que eu possuo; um assunto sobre o qual mil oradores podem falar ao mesmo tempo. Um tema poderoso, vasto e incompreensível, que poderia ocupar toda a eloquência ao longo da eternidade e, ainda assim, continuaria inesgotável!


No tocante à Bíblia, tenho três coisas a dizer esta noite e todas elas estão no meu texto. Primeiro, seu autor: “Eu escrevi”. Segundo, seus assuntos — as grandes coisas da Lei de Deus. E em terceiro, a maneira comum como ela é tratada — foi considerada pela maioria dos homens uma coisa estranha.

1. Primeiro, quanto a este livro, quem é O AUTOR? O texto diz que é Deus. “Embora eu lhe escreva a minha lei em dez mil preceitos”. Aqui está a minha Bíblia — quem a escreveu? Eu a abro e descubro que ela consiste em uma série de tratados. Os cinco primeiros tratados foram escritos por um homem chamado Moisés. 

Eu viro as páginas e encontro outros. Às vezes, vejo que o escritor é Davi; outras vezes, Salomão. Aqui eu leio Miqueias, depois Oseias, depois Amós. Ao avançar, em direção às páginas mais luminosas do Novo Testamento, vejo Mateus, Marcos, Lucas e João, Paulo, Pedro, Tiago e outros, mas, ao fechar o livro, pergunto-me quem é o seu Autor. Esses homens reivindicam conjuntamente a autoria? São eles os compositores desse grandioso volume? Dividem a honra entre si? Nossa santa religião responde: Não! Este volume é a escrita do Deus vivo — cada letra foi escrita por um dedo Todo-poderoso.

Cada palavra dele saiu dos lábios eternos, cada sentença foi ditada pelo Espírito Santo. Embora Moisés tenha sido empregado para escrever suas histórias com sua caneta ardente, Deus guiou aquela caneta. Pode ser que Davi tenha tocado a sua harpa e deixado sair doces salmos melódicos de seu dedilhar, mas Deus moveu as suas mãos sobre as cordas vivas de sua harpa dourada. 

Pode ser que Salomão tenha cantado cânticos de amor ou proferido palavras de consumada sabedoria, mas Deus dirigiu seus lábios e deu eloquência ao pregador. Se eu sigo o trovejante Naum quando seus cavalos trilham as águas, ou Habacuque quando ele vê as tendas de Cusã em aflição; se leio Malaquias, quando a Terra está ardendo como um forno; se eu me volto à suave página de João, que fala de amor, ou aos robustos capítulos inflamados de Pedro, que falam do fogo devorando os inimigos de Deus; se me volto a Judas, que lança anátemas sobre os inimigos de Deus — em todos os lugares onde encontro Deus falando —, é a voz de Deus, não a do homem! 

As palavras são de Deus, as palavras do Eterno, do Invisível, do Todo-Poderoso, do Jeová desta Terra! Esta Bíblia é a Bíblia de Deus. E quando a vejo, pareço ouvir uma voz brotando dela e dizendo: “Eu sou o Livro de Deus — Homem, leia-me. Eu sou a escrita de Deus — abra as minhas páginas, porque fui escrita por Ele. Leia, porque Ele é o meu Autor e você o verá visível e manifesto em toda parte.” “Embora eu lhe escreva a minha lei em dez mil preceitos.”


Como vocês sabem que Deus escreveu o livro? Isso é exatamente o que eu não tentarei provar-lhes. Se eu quisesse, poderia, para uma demonstração — porque há argumentos suficientes, há razões suficientes — se eu cuidasse em ocupar o seu tempo esta noite apresentando-os a vocês —, mas não farei isso. Se eu quisesse, poderia lhes dizer que a grandeza do estilo está acima daquela de qualquer escrito mortal e que todos os poetas que já existiram não conseguiriam, com todas as suas obras unidas, nos dar uma poesia tão sublime e uma linguagem tão poderosa quanto as que se podem encontrar nas Escrituras! 

Eu poderia insistir em que os assuntos de que ela trata estão além do intelecto humano. Que o homem nunca poderia ter inventado as grandes doutrinas de uma divindade Triúna. O homem nada nos poderia ter contado sobre a criação do Universo. Ele nunca poderia ter sido o autor da majestosa ideia da providência; de que todas as coisas são ordenadas segundo a vontade de um grande Ser Supremo e cooperam para o bem. Eu poderia me estender acerca de sua honestidade, uma vez que ela conta as falhas de seus escritores. 

Sua unidade, uma vez que ela nunca se contradiz. Sua magistral simplicidade para que aquele que corre possa lê-la. E eu poderia mencionar mais 100 coisas que se prestariam a uma demonstração de que o livro é de Deus! Entretanto, não venho aqui para provar isso. Sou um ministro cristão e vocês são cristãos, ou assim o professam; e ministros cristãos não têm a necessidade de fazer questão de trazer à tona argumentos infiéis para respondê-los. 

Essa é a maior loucura do mundo. Os infiéis, pobres criaturas, não conhecem seus próprios argumentos até que nós os contemos a eles; e então, eles catam seus dardos sem ponta para atirá-los novamente no escudo da verdade. É loucura instigar essas brasas do inferno, mesmo que estejamos bem preparados para extingui-las. Que os homens do mundo aprendam o erro por si mesmos — não sejamos os propagadores de suas mentiras!

É verdade que existem alguns pregadores que possuem poucos recursos e querem esses infiéis para se abastecerem! Porém, os homens escolhidos pelo próprio Deus não precisam fazer isso. Eles são ensinados por Deus e o Senhor lhes fornece assunto, com linguagem e com poder. Pode haver alguém aqui, esta noite, que veio sem fé, um homem racional, um livre-pensador. Com ele eu não discuto. Professo não ficar aqui como polêmico, e sim como pregador de coisas que conheço e sinto. Mas também já fui como ele. 

Houve um tempo mau em que escorreguei a âncora da minha fé, cortei o cabo da minha crença. Já não mais me ancorava muito nas áreas costeiras da Revelação. Permiti que o meu navio se afastasse ao capricho do vento. E disse à razão: “Seja você o meu capitão”. Disse ao meu próprio cérebro: “Seja você o meu leme”. E parti para minha louca viagem. Graças a Deus, agora tudo está acabado, mas lhes contarei esta breve história. Foi um velejar apressado sobre o oceano tempestuoso do livre pensamento. 

Avancei e, à medida que avançava, os céus começaram a escurecer. Porém, para compensar essa deficiência, as águas eram brilhantes, com lampejos de luz. Eu via faíscas voando para cima, as quais me agradavam, e pensava: “Se isto é o livre pensamento, é algo afortunado”. Meus pensamentos pareciam pedra preciosas e eu espalhava estrelas com as duas mãos. Porém, logo, em vez desses lampejos de glória, eu via demônios ameaçadores, ferozes e horríveis levantando-se das águas. E, quando eu corria, eles rangiam os dentes e sorriam para mim. 

Eles apreenderam a proa do meu navio e me arrastaram enquanto eu, em parte, gloriava-me da rapidez do meu movimento, contudo estremecia com a incrível velocidade com que passei pelos antigos marcos da minha fé. Enquanto eu avançava a uma velocidade tremenda, comecei a duvidar de minha própria existência. Eu tinha dúvida se havia um mundo, duvidava se havia algo como eu mesmo! Fui até a beira dos terríveis reinos da incredulidade. Fui até o fundo do mar da infidelidade. Eu duvidava de tudo. 

Porém, aqui o diabo se infiltrou, pois foi exatamente a extravagância da dúvida o que provou o seu absurdo. Exatamente no momento em que vi o fundo daquele mar, veio uma voz que disse: “E essa dúvida pode ser verdadeira?”. Àquele pensamento, acordei. Despertei daquele sonho da morte, o qual Deus sabe que poderia ter condenado a minha alma e arruinado este meu corpo se eu não tivesse despertado. 

Quando me ergui, a fé assumiu o leme. A partir daquele momento, não duvidei. A fé me levou de volta. A fé gritou: “Para longe, para longe!”. Lancei minha âncora no Calvário. Elevei os meus olhos para Deus — e aqui estou, vivo e fora do inferno. Por isso, falo o que conheço. Naveguei naquela perigosa viagem. Cheguei a salvo à terra firme. Peçam-me novamente para ser um infiel! Não, eu experimentei, foi doce no início, mas amargo depois. 

Agora, atado ao evangelho de Deus mais firmemente do que nunca, de pé como que em uma rocha de diamante, eu desafio os argumentos do inferno a me moverem, pois “sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia”. Porém, não argumentarei, nem discutirei nesta noite. Vocês professam ser homens e mulheres cristãos; caso contrário, não estariam aqui. Sua profissão de fé pode ser uma mentira. 

O que vocês dizem ser pode ser exatamente o oposto do que realmente são, mas, ainda assim, eu suponho que todos vocês admitem que esta é a Palavra de Deus. Então, um pensamento ou dois sobre isso. “Embora eu lhe escreva a minha lei em dez mil preceitos.”

Meus amigos, primeiramente, observem esse volume e admirem a sua autoridade. Este não é um livro de Salomão. Não são os ditados de sábios gregos. Aqui não estão os enunciados de filósofos de eras passadas. Se estas palavras fossem escritas pelo homem, poderíamos rejeitá-las, mas deixem-me ao pensar solene — este livro é a escrita de Deus — estas palavras são de Deus. Deixem-me olhar a sua data — ele tem a data das colinas do Céu. Deixem-me olhar suas letras — elas cintilam glória em meus olhos. Deixem-me ler seus capítulos — são grandes, com significado e mistérios desconhecidos. Deixem-me revirar suas profecias — elas estão prenhes de ordens inimagináveis. Ó, Livro dos livros! E você foi escrito pelo meu Deus? 

Então, curvar-me-ei diante de você. Livro de grande autoridade, você é uma proclamação do Imperador do Céu! Longe de mim exercer meu raciocínio para o contradizer. Raciocínio! Seu lugar é se posicionar e descobrir o que este volume significa, não contar o que este Livro deveria dizer. Meu raciocínio, meu intelecto, venham, sentem-se e escutem, porque estas palavras são as palavras de Deus! Não sei como ampliar esse pensamento. 

Ó, se vocês pudessem sempre se lembrar de que esta Bíblia foi realmente e, de fato, escrita por Deus! Ó, se tivessem sido admitidos às câmaras secretas do céu, se tivessem visto Deus pegando Sua caneta e escrevendo essas letras, certamente as respeitariam. Porém, elas são tão a escrita de Deus quanto se vocês tivessem visto Deus escrevê-las. Esta Bíblia é um livro de autoridade; ela é um livro autorizado, porque Deus a escreveu. Ó, tremam, tremam, para que nenhum de vocês a despreze. Distingam sua autoridade, porque é a Palavra de Deus!

Então, uma vez que Deus a escreveu, distingam sua veracidade. Se eu a tivesse escrito, haveria vermes de crítica que, de imediato, se alastrariam nela e a cobririam com sua prole perversa. Se eu a tivesse escrito, haveria homens que a despedaçariam de imediato e, talvez, também muito corretamente. Porém, esta é a Palavra de Deus. Venham, vocês críticos procurem e encontrem uma falha! Examinem-na desde Gênesis até Apocalipse e encontrem um erro. Este é um filão de ouro puro, não contaminado por quartzo ou qualquer substância terrena. 

Esta é uma estrela sem uma impureza, um sol sem uma mancha; uma luz sem trevas; uma lua sem sua palidez; uma glória sem obscuridade. Ó Bíblia! De nenhum outro livro se pode dizer que seja perfeito e puro, mas, de você, podemos declarar que toda sabedoria está reunida em suas páginas, sem qualquer partícula de loucura! Este é o juiz que cessa os conflitos quando a inteligência e a razão falham. 

Este é o livro não maculado por erros — ele é puro, sem impurezas, verdade perfeita. Por quê? Porque Deus o escreveu. Ah, acusem Deus de erro, se quiserem. Digam-lhe que o livro dele não é o que deveria ser. Ouvi homens pudicos e cheios de falso recato que gostariam de alterar a Bíblia. E (quase me ruborizo ao dizer isso), mas ouvi ministros alterarem a Bíblia de Deus porque a temiam. Vocês já ouviram um homem dizer “Quem crer e for batizado, será salvo; quem, porém, não crer” — o que a Bíblia diz? — “será maldito”. 

Mas acontece que isso não é suficientemente bem-educado, então eles dizem “será condenado”. [N.T.: Na Bíblia inglesa utilizada pelo autor, a palavra grega katakrino foi traduzida como “damned” (“maldito” ou “condenado”). Em português, ela é traduzida como “condenado”.]

Cavalheiros! Parem de suavizar suas palavras. Falem a Palavra de Deus. Não queremos nenhuma das suas alterações. Ouvi homens orando e, em vez de “confirmem a vossa vocação e eleição”, eles diziam “confirmem a vossa vocação e salvação”. É uma pena eles não terem nascido muitíssimo tempo atrás quando Deus já existia, para ensinar o Senhor como escrever! Ó, impertinência sem limites! 

Ó, soberba total! Tentar ditar ao Onipotente Criador — ensinar o Onisciente e instruir o Eterno! É estranho poder haver homens tão vis a ponto de usarem o “canivete de escrivão” [N.E.: Jr 36.23] de Jeoaquim para cortar passagens da palavra por serem impalatáveis; ó, vocês que não gostam de certas porções das Sagradas Escrituras, estejam certos de que seu paladar é corrompido e que Deus não se deterá por sua insignificante opinião. A sua aversão é exatamente a razão pela qual Deus a escreveu, porque vocês não devem ser agradados. Vocês não têm o direito de ser satisfeitos. 

Deus escreveu aquilo de que vocês não gostam. Ele escreveu a verdade. Ó, curvemo-nos em reverência diante da Bíblia, porque Deus a inspirou. Ela é a pura verdade. Desta fonte jorra aqua vitae — “a água da vida”, sem uma única partícula da Terra. Deste sol saem raios de esplendor, sem mistura de trevas. Bíblia Bendita, você é totalmente verdadeira!

Mais uma vez, antes de deixarmos este ponto, paremos e consideremos a natureza misericordiosa de Deus, por até nos ter escrito uma Bíblia. Ah, Ele poderia ter nos deixado sem ela, para tatearmos pelo nosso caminho escuro como os cegos procuram a parede. Ele poderia ter nos permitido continuar vagando com a estrela da razão como nosso único guia. 

Recordo-me de uma história do Sr. Hume, que muito constantemente afirmava que a luz da razão é abundantemente suficiente. Certa noite, na casa de um bom ministro, ele estava discutindo a questão e declarando sua firme convicção na suficiência da luz da natureza. Ao sair, o ministro se ofereceu para segurar-lhe uma vela, para iluminar os degraus para ele descer. Ele disse: “Não, a luz da natureza será suficiente, a lua será suficiente”. 

Aconteceu que a Lua estava encoberta por uma nuvem e ele caiu ao descer os degraus. “Ah”, disse o ministro, “no fim das contas, seria melhor você ter tido uma pequena luz vinda de cima, Sr. Hume”. Então, supondo que a luz da natureza seja suficiente, seria melhor termos também uma pequena luz vinda de cima, e então teremos a certeza de estarmos certos! É melhor ter duas luzes do que uma só. A luz da criação é uma luz brilhante. 

Deus pode ser visto nas estrelas, Seu nome está escrito em letras douradas na fronte da noite. Vocês podem descobrir a Sua glória nas ondas do oceano, sim, nas árvores do campo. Porém, é melhor lê-la em dois livros do que em um. Vocês a encontrarão mais claramente revelada aqui, porque Ele mesmo escreveu este Livro e lhes deu a chave para compreendê-lo, se vocês tiverem o Espírito Santo. Ah, amados, agradeçamos a Deus por esta Bíblia. Amemo-la. Consideremo-la mais preciosa do que muito ouro fino!

Porém, permitam-me dizer uma coisa antes de passar para o segundo ponto. Se esta é a Palavra de Deus, o que será de alguns de vocês que não a leram no último mês? “Mês, senhor? Eu não a li este ano todo!” Sim, alguns de vocês sequer a leram. A maioria das pessoas trata a Bíblia muito educadamente. Elas têm um pequeno volume de bolso, bem encadernado — envolvem-na com um lenço branco — e a carregam para seus lugares de culto. 

Ao chegarem a casa, colocam-na em uma gaveta até o próximo domingo de manhã. Então, ela sai novamente para um pequeno agrado e vai à capela. Isso é tudo que a pobre Bíblia recebe no tocante a tomar ar! É esse o estilo de vocês entreterem esse mensageiro celestial. Nas Bíblias de alguns de vocês há poeira suficiente para escreverem “maldição” com os seus dedos. Alguns de vocês não folhearam suas Bíblias durante um longo, longo, longo tempo e o que pensam? Eu lhes digo palavras contundentes, mas verdadeiras. 

O que Deus dirá no fim? Quando se apresentarem diante dele, Ele dirá: “Você leu a minha Bíblia?” “Não”. “Eu escrevi a você uma carta de misericórdia. Você a leu?” “Não”. “Rebelde! Eu lhe enviei uma carta convidando-o a mim — você alguma vez a leu?” “Senhor, eu nunca rompi o lacre. Eu a mantive fechada.” Deus diz: “Maldito! Então você merece o inferno. Se eu lhe enviei uma carta de amor e você nem sequer rompeu o lacre — o que devo fazer-lhe?” Ó, não permitam que isso aconteça com vocês. Sejam leitores da Bíblia. Sejam pesquisadores da Bíblia.

Trecho do sermão A Bíblia, retirado da Bíblia de estudos e sermões de Charles H. Spurgeon.