Rebeca: "prefiro morrer a ver" — E pediu para si a morte

“Estou cansada dessas mulheres hititas que vivem aqui! Prefiro morrer a ver Jacó se casar com uma delas!” Gênesis 27.46 

 

Após Jacó enganar a seu pai Isaque, recebendo as bênçãos de primogênito, seu irmão, Esaú, para quem as bênçãos estavam reservadas, passa a querer matá-lo (Gn 27.41). A mãe deles, Rebeca, vê o perigo, e decide estabelecer um plano: percebendo que Esaú planejava matar Jacó (Gn 27.42), orienta que Jacó fuja para a casa de seu tio, Labão (Gn 27.43), e fique lá até que a fúria de Esaú tenha passado (Gn 27.44). 

Porém, para além de falar com Jacó, ela decide falar com seu marido, Isaque, a fim de fazer com que parecesse que a ideia foi dele. Pois, se Jacó fosse para lá por ordem de seu pai, ele não sairia como fugitivo. Por isso ela chega até seu marido e declara: “Estou cansada dessas mulheres hititas que vivem aqui!”, referindo-se às esposas de Esaú, e: “Prefiro morrer a ver Jacó se casar com uma delas!”. O resultado foi conforme ela planejou: Isaque chama a Jacó e o envia para Padã-Arã, onde vivia Labão, a fim de não casar “com uma mulher cananita” (Gn 27.1). 

Uma história bastante curiosa, que mostra uma mulher que faz um plano elaborado no qual dizer para o marido que preferiria morrer foi, na visão dela, “um golpe de mestre”. Tais palavras, em seu plano, funcionaram como um apelo ao seu marido, como se tivesse dito: “Por favor, resolva essa situação, pois não posso suportá-la”. Porém, não podemos ignorar a escolha das palavras que ela faz, apelando ao emocional do seu esposo ao indicar que seu desejo seria a morte, afirmando: “prefiro morrer”. 

Ela conseguiu, de fato, deixar Isaque preocupado não apenas com “a perspectiva de uma terceira nora heteia”, que foi sua desculpa, mas principalmente com a possibilidade de uma “esposa perturbada” por esse problema. Assim, Rebeca consegue fazer um “manejo persuasivo tanto do filho como do pai”, alcançando o que para ela foi uma verdadeira “vitória diplomática”, mas que envolveu a manipulação de seu esposo, tal como havia feito ao enganá-lo cobrindo Jacó com pelos de cabritos e vestindo-o com as roupas de Esaú (Gn 27.15-16).

Por mais que Rebeca tenha dramatizado para que seu marido fizesse aquilo que ela estava planejando, ao falar que desejava a morte apenas para manipulá-lo, sua atitude mostra uma pessoa desesperada, assim como também revela problemas familiares que dizem respeito à prevenção ao suicídio. Afinal, quando uma pessoa manipula seus familiares, estabelece uma relação doentia que pode ser extremamente perigosa, tendo até mesmo o risco de suicídio dependendo das circunstâncias e da situação. 

 

REBECA, ISAQUE E JACÓ: A MANIPULAÇÃO 

Não são poucos os que, após um término de namoro ou um divórcio, afirmam que vão tirar suas vidas. E, por mais que essas afirmações possam parecer pura chantagem, também não são poucos os que realmente fazem isso. Na cidade de Vitória — cidade de origem de um de nós dois (Renato) —, por exemplo, houve muitos casos de suicídio por desilusão amorosa com um mesmo método: decidiram jogar seus carros em alta velocidade contra postes protegidos com manilhas de cimento. Trata-se de uma medida desesperada, resultante de uma pessoa que, saindo de carro com os sentimentos aflorados pelo que estava passando, decidiu tirar sua própria vida. 

Em muitos casos, tais ações são realizadas após ameaças explícitas como “É melhor eu morrer e acabar com tudo”, ou mesmo implícitas, tais como “Vou fazer uma besteira”. Tanto tais ações como as ameaças são fruto de um sentimento de posse para com o outro, o qual, ao ser rompido pela separação, gera um desespero pela perda do controle sobre o parceiro, fazendo com que tais pessoas desejem a morte como meio de “punir alguém com a culpa imposta pelo suicídio”, a fim de terem sua importância retomada por quem as deixou. Em situações assim, tais pessoas precisam ser encaminhadas para suporte espiritual, médico e psicológico. 

Tal situação pode acabar aparecendo, porém, para além de uma ruptura drástica como o divórcio naquilo que Carlos “Catito” Grzybowski denomina “escalação sacrificial”: trata-se de um “um sistema de vitimização que ocorre em relacionamentos simétricos, nos quais existe pouca concordância em relação às posições que as pessoas assumem e, assim, ambos acabam se sentindo vítimas”. 

Na prática, isso se apresenta com um ou mais membros de uma família buscando ocupar o lugar de “vítima”, vitimizando-se de forma progressiva, podendo chegar, inclusive, ao suicídio, a fim de alguém se afirmar como detentor da posição mais extrema de vítima. Algo que é evidentemente absurdo, mas que ocorre como resultado do estabelecimento de uma lógica de insanidade dentro da qual estas famílias se inserem, muitas vezes por anos e anos. 

Quando há mais de uma pessoa da família a se “vitimizar”, o problema se torna ainda maior, uma vez que se estabelece “uma ‘dança’ escalonada de tentativa contínua de superar o outro no papel de vitimização”. Por conta disto, é possível que pais e mães não deem atenção aos problemas de seus filhos, minimizando-os ao mesmo tempo que buscam enfatizar, engrandecer e superdimensionar seus próprios problemas, a fim de se afirmarem como as verdadeiras “vítimas” da família. 

Em famílias que se encontram dentro deste sistema, as pessoas que se afirmam como vítima assumem o papel de “sujeitos sofridos, impotentes, desamparados e magoados”. E, por essa razão, sua atenção se concentra tanto nos outros, que acabam não desenvolvendo sua própria identidade, deixando de definir quem são ou o que querem, para além da família. 

Assim, estabelece-se uma dependência doentia, que se expressa, inclusive, no sentimento de posse sobre os demais membros da família, que passam a ser vistos como “ingratos” por não corresponderem àquilo que a “vítima” acredita fazer em prol da família, ou como “insensíveis” por não darem o foco devido ao seu sofrimento. E, inversamente, tal vitimização pode levar os outros membros da família a colocarem sobre si a responsabilidade total da família, sobrecarregando-se doentiamente. 

Nós mesmos já vimos isso acontecer em uma família que, vivendo em uma vitimização por parte dos pais, resultou em uma carga de responsabilidade sobre um dos filhos, que ocupou as responsabilidades paternas, invertendo completamente os papéis com seus pais. Algo que não somente prejudicou que o filho vivesse sua adolescência plenamente, mas também estabeleceu fluxos errados nas relações, uma vez que este filho passou a ser o intermediário entre seu pai e sua mãe, ocupando um lugar indevido e que prejudicou a todos dentro do sistema familiar. 

O resultado disso é uma relação familiar não apenas doentia, mas perigosa. Pois, para além de poder tornar a convivência em algo insuportável, pode resultar no atentado de alguém contra a própria vida. Tanto por parte de alguém que se sobrecarrega no sistema familiar, como por parte de uma das “vítimas”. Um perigo o qual, sendo sentido por outro membro da família — até mesmo pela ameaça que a “vítima” pode fazer de tirar a sua própria vida —, muitas vezes faz com que este outro membro da família se sujeite às manipulações da “vítima”, a fim de evitar uma tragédia. 

Porém, a estrutura de vitimização também pode ir para além da família, incluindo as relações da “vítima” com seu médico ou, inclusive, com seu pastor. Não é difícil de alguém que sofre julgar aqueles que supostamente têm a responsabilidade de ajudá-lo. Assim como podem julgar seus familiares, muitas pessoas que passam por situações de sofrimento julgam aqueles que lhes ajudam espiritualmente — pastores, padres, capelães etc. — por sua aparente indisponibilidade como um grande defeito e um descaso, vitimizando-se. 

Quando lemos o capítulo 27 de Gênesis, vemos que até mesmo Jacó, seu filho querido, foi manipulado por ela, quando eles esquematizaram para que Isaque, seu marido, fosse enganado. E, questionada por Jacó que Isaque poderia descobrir o plano e o amaldiçoar, Rebeca chegou a declarar: “Que caia sobre mim essa maldição, meu filho! Apenas faça o que lhe digo” (Gn 27.13). Palavras de uma mulher desesperada que faria de tudo para realizar sua vontade sobre sua família. Algo que não deve ser louvado como uma qualidade, pois deve ser visto como um defeito bastante perigoso, e como uma característica que, infelizmente, tem se tornado comum em famílias disfuncionais.

 

Trecho retirado do livro E pediu para si a morte — personagens bíblicos que quase desistiram, de Publicações Pão Diário.