Se você já ouviu falar de Anne Frank, certamente precisa conhecer a história de Corrie ten Boom. A família ten Boom, que abrigou alguns judeus, é do mesmo grupo de resistência que escondeu Anne Frank.

“Cada experiência que Deus nos dá… é a preparação perfeita para um futuro que só Ele pode ver.” – Corrie ten Boom

Corrie ten Boom foi uma relojoeira holandesa que se tornou heroína da Resistência sobrevivente dos campos de concentração de Hitler e uma das mais notáveis evangelistas do século 20. Durante a Segunda Guerra Mundial, ela e sua família arriscaram suas vidas para ajudar judeus e integrantes da Resistência a escapar no nazismo, e, por causa dessa iniciativa, os ten Boom foram presos e enviados aos abomináveis campos de extermínio nazistas. “O refúgio secreto” narra a história de como a fé, por fim, triunfa sobre o mal.

Há cerca de meio século, por meio da leitura de “O refúgio secreto”, milhões têm compreendido que não há poço tão profundo, que o amor de Deus, ainda mais profundo, não consiga alcançar.

Leia aqui um trecho do livro "O refúgio secreto":

“Seguimos nossa guia em fila única, pois o corredor não era largo o suficiente para duas pessoas, lutando contra a claustrofobia daquelas plataformas que se erguiam acima de nós por todos os lados. O enorme salão estava quase vazio de pessoas; deviam estar fora em diversas equipes de trabalho. Finalmente ela apontou para um segundo andar, no centro de um grande bloco. Para chegar lá, tínhamos que subir na plataforma debaixo, nos empurrar para cima, e então atravessar engatinhando três outras plataformas cobertas com palha. Então alcançávamos aquela que dividiríamos com…quantas? A plataforma acima era próxima demais para nos permitir sentar. Deitamos de costas, lutando contra a náusea que nos subia por causa do mau cheiro da palha. Podíamos escutar as mulheres que chegaram conosco procurando seus lugares.

De repente, sentei-me, batendo minha cabeça nas traves acima. Algo havia picado a minha perna.

— Pulgas! — gritei. — Betsie, este lugar está infestado delas!

Arrastamo-nos pelas plataformas vizinhas com as cabeças baixas para evitar outra batida, descemos para o corredor, e seguimos para um facho de luz.

— Aqui! E ali mais uma! — eu gritava. — Betsie, como podemos viver num lugar como esse?

— Mostre-nos. Mostre-nos como.

Foi dito com tanta naturalidade, que levei um segundo para perceber que ela estava orando. Para Betsie, a separação entre a oração e o restante da vida parecia estar desaparecendo cada vez mais.

— Corrie! — ela falou com animação. — Ele nos deu a resposta! Antes que perguntássemos, como sempre faz! Na Bíblia… esta manhã. Onde estava? Leia de novo aquela parte!

Olhei pelo longo corredor estreito para ter certeza de que nenhum guarda estava à vista, então tirei a Bíblia da bolsinha. 

— Era em primeira Tessalonicenses — disse. 

Estávamos em nossa terceira leitura completa do Novo Testa-mento, desde a saída de Scheveningen. Na luz fraca, virei as páginas. — Aqui está: “[…] consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejais longânimes para com todos. Evitai que alguém retribua a outrem mal por mal; pelo contrário, segui sempre o bem entre vós e para com todos…”. Parecia ter sido escrito expressamente para Ravensbruck.

— Prossiga! — disse Betsie. — Isso não era tudo.

— Ah, sim: “[…] para com todos. Regozijai-vos sempre. Orai sem cessar. Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus…”.

— É isso, Corrie! Essa é a resposta dele. “Em tudo, dai graças!” É o que podemos fazer. Podemos começar agora mesmo a agradecer a Deus por cada detalhe deste novo alojamento!

Olhei para ela, então para o meu entorno, naquele cômodo escuro e abafado. — Pelo quê? — perguntei.

— Pelo fato de estarmos aqui juntas.

Mordi meu lábio.

— Ah sim, Senhor Jesus!

— E pelo que você está segurando nas suas mãos.

Olhei para a Bíblia.

— Sim! Obrigada, Senhor, por não haver inspeção quando entramos aqui! Obrigada por todas as mulheres deste quarto, que irão conhecê-lo nestas páginas.

— Sim — Betsie falou. — Obrigada pela lotação aqui. Como estamos tão próximas, muitas mais ouvirão! — Ela olhou para mim na expectativa.

— Corrie! — ela me cutucou.

— Ah, certo. Obrigada, Senhor, pela multidão embolada, amontoada, enfurnada, compactada, sufocada.

— Obrigada, Senhor, — Betsie prosseguiu serenamente — pelas pulgas e pelas…

As pulgas? Isso era demais!

— Betsie, não há como me fazer ser grata por uma pulga, nem mesmo Deus.

— “Em tudo, dai graças!” — ela citou. — Não diz: “nas circunstâncias agradáveis.” Pulgas fazem parte deste lugar onde Deus nos colocou.

E então, de pé entre pilhas de plataformas, demos graças pelas pulgas. Mas dessa vez, eu tinha certeza de que Betsie estava errada.”