O coração: a região radical da vida — Psicologia Bíblica

1. Centro da vida física

Na Bíblia, o coração, não o cérebro, é revelado como o centro do pensamento. Durante um longo tempo, a ciência sustentou uma firme oposição ao ponto de vista bíblico, mas, agora, os psicólogos modernos têm lentamente começado a acreditar que, para explicar os fatos da vida consciente, é necessário revisar suas conclusões antibíblicas anteriores. O coração é a primeira coisa a viver fisicamente, e a Bíblia coloca nele todos os fatores ativos que fomos inclinados a depositar no cérebro. A cabeça é a perfeita expressão exterior do coração. No corpo místico de Cristo, Ele é o Cabeça, não o coração. “Cristo é o cabeça da igreja” (EFÉSIOS 5:23; COLOSSENSES 2:19; 1 CORÍNTIOS 11:3).

Então, como as pessoas que não têm um relacionamento correto com Deus, cujas inclinações interiores não foram alteradas, podem ser parte desse corpo, se Cristo é o Cabeça, a verdadeira expressão do corpo, especialmente no centro de sua vida?

No Antigo Testamento, a cabeça tem a proeminência da bênção dada a ela por ser a expressão exterior da condição do coração. “Sobre a cabeça do justo há bênçãos” (PROVÉRBIOS 10:6; GÊNESIS 48:14; 49:26; LEVÍTICO 8:12; SALMO 133:2). Outras passagens se referem ao “semblante”, significando não apenas o rosto e a frente da cabeça, e sim todo o corpo que é a expressão exterior da pessoa. O semblante se torna o verdadeiro reflexo do coração quando este teve tempo de manifestar sua verdadeira vida. “Não sabia Moisés que a pele do seu rosto resplandecia, depois de haver Deus falado com ele” (ÊXODO 34:29). “O aspecto do seu rosto testifica contra eles; e, como Sodoma, publicam o seu pecado e não o encobrem” (ISAÍAS 3:9; VEJA TAMBÉM MATEUS 17:2; 2 CORÍNTIOS 3:13; 1 SAMUEL 16:7).

A Bíblia coloca a cabeça na posição de destaque, não na posição central; a cabeça é a manifestação de como é o coração, a expressão exterior do coração, assim como uma árvore é a expressão exterior da raiz. Essa é a relação entre a cabeça e o coração revelada pela Bíblia. Os cientistas materialistas dizem que “o cérebro secreta o pensamento como o fígado secreta a bile”; fazem do cérebro o cerne do pensamento. A Bíblia faz do coração o centro do pensamento, e do cérebro meramente a máquina que o coração utiliza para expressar-se. Este ponto é vital em nosso julgamento das pessoas. Carlyle, por exemplo, representa o julgamento de pessoas por aqueles que não aceitam o ponto de vista bíblico acerca desse assunto. Ele julgou as pessoas pelo cérebro delas e chegou à conclusão de que a maior parte da raça humana era tola. Deus nunca julga homens e mulheres pelo cérebro; Ele os julga pelo coração.

O uso do termo bíblico coração é mais bem compreendido dizendo simplesmente “eu”. O coração não é meramente o lugar das afeições — é o centro de tudo. O coração é o altar central; o corpo é o pátio externo. O que oferecemos no altar do coração acabará sendo transmitido pelas extremidades do corpo. Assim, o coração é o centro da vida, o verdadeiro centro de todas as atividades vitais do corpo, da alma e do espírito. Ao dizer “com o coração se crê” (ROMANOS 10:10), o apóstolo Paulo atribui à palavra coração um significado maior do que geralmente damos. A Bíblia sempre confere um significado maior do que somos inclinados a dar. Na Bíblia, o termo coração significa o centro de tudo. A alma humana tem o espírito dentro e acima dela, e o corpo junto e ao redor dela; porém, o âmago de tudo é o coração. Quando falamos do coração, em sentido figurativo ou real, queremos dizer a parte mais central de uma pessoa.

O ensino bíblico difere do ensino da ciência porque torna o coração o centro da alma e o centro do espírito. Ao lidar com a Bíblia, o perigo é chegar a ela com uma ideia preconcebida, explorá-la e tirar dela apenas o que se concorda de determinada ideia. Se tentarmos, como tem sido tentado por psicólogos, extrair da Bíblia algo que concorde com a ciência moderna, teremos de omitir muitas coisas que a Palavra de Deus diz em relação ao coração. Segundo a Bíblia, o coração é o cerne: o centro da vida física, o centro da memória, o centro da condenação e da salvação, o centro da ação de Deus e o centro da ação do diabo, o centro a partir do qual opera tudo que molda o mecanismo humano.


c) Poder vital


“Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda que o vosso coração fique sobrecarregado com as consequências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo” (LUCAS 21:34; SALMO 38:10). Essas passagens são características de muitas outras em que o coração se revela o centro de todo o poder vital, físico ou não. Qualquer coisa que faça a frequência cardíaca aumentar contribui para uma manifestação superior ou inferior da vida; o nosso Senhor produz o tipo de vida que altera instantaneamente a vida do coração.

Certas pessoas com quem você entra em contato o “congelam” — você não consegue pensar, as coisas não “andam”, tudo parece tenso e ruim; você chega perto de outras pessoas e todas aquelas amarras desaparecem — você fica surpreso com a clareza com que consegue pensar, tudo parece “andar” melhor. Você respira fundo e diz: “Ora, eu me sinto muito diferente; o que aconteceu?”. A primeira personalidade trouxe uma atmosfera que congelou o coração, não apenas física, mas psiquicamente; manteve-o frio, abatido e afastado; a segunda personalidade deu ao coração a chance de expandir-se, desenvolver-se e espalhar-se por todo o corpo.

No domínio físico, se as pessoas soubessem que a circulação do sangue e a aceleração da vida do coração removeriam as enfermidades do corpo, muito menos remédios seriam tomados e muito mais caminhadas seriam feitas. O coração é o centro de toda a vida física e de todas as imaginações da mente. Qualquer coisa que mantenha o sangue físico em boa condição e o coração funcionando adequadamente beneficia a vida da alma e a do espírito. Foi por isso que Jesus Cristo disse: “Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda que o vosso coração fique sobrecarregado com as consequências da orgia…” (LUCAS 21:34).
Sempre que Paulo menciona certos tipos de pecados, chama-os de idolatria. A cobiça é chamada de idolatria porque, na vida de um indivíduo ambicioso, toda gota de sangue é afastada de Deus espiritualmente. Isso ocorre por sensualidade, embriaguez e vingança. Provavelmente, a vingança é a paixão mais tirânica da mente carnal. A primeira coisa maravilhosa feita pela nova vida que nos é concedida pelo Espírito Santo é aliviar o coração e, à medida que obedecemos ao Espírito, a manifestação na vida se torna mais fácil.

Satanás, porém, é tão sutil quanto Deus é bom; ele tenta falsificar tudo que o Senhor faz e, se não conseguir falsificar, o limitará. Não ignore os estratagemas dele!


d) A vida da pessoa íntegra


“Contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas, enchendo o vosso coração de fartura e de alegria” (ATOS 14:17; VEJA TAMBÉM TIAGO 5:5). Essas passagens referem-se ao poder da vida do coração. Se o nosso coração está bem com Deus, percebemos o que é mencionado em Atos 14:17, que tudo nutre e abençoa a vida. Tiago 5:5 indica o outro lado dessa verdade: “Tendes vivido regaladamente sobre a terra; tendes vivido nos prazeres; tendes engordado o vosso coração, em dia de matança”. Podemos desenvolver, na vida do coração, tudo o que queremos; não há limite para o possível crescimento e desenvolvimento. Se nos entregarmos à maldade e a Satanás, não haverá fim para o crescimento da crueldade; se nos entregarmos abertamente a Deus, não haverá fim para o nosso desenvolvimento e crescimento em graça. O nosso Senhor não teme as consequências quando o coração está aberto para Ele. Não é de admirar que a Bíblia aconselhe: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida” (PROVÉRBIOS 4:23); Salomão orou por um “coração compreensivo” (1 REIS 3:9), e Paulo declara que a paz de Deus “guardará o [nosso] coração” (FILIPENSES 4:7).


2. Centro da vida prática


a) Empório


“Pois não têm eles sinceridade nos seus lábios; o seu íntimo é todo crimes” (SALMO 5:9). A palavra “íntimo” é apenas outra palavra para coração; no Salmo 49:11, a frase “pensamento íntimo” significa coração. “Não seja o adorno da esposa o que é exterior […] seja, porém, o homem interior do coração, unido ao incorruptível trajo de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus” (1 PEDRO 3:3-4).

O coração é a bolsa de valores e o mercado; as nossas palavras e expressões são simplesmente as moedas que usamos, mas a loja se encontra no coração, o empório onde estão todas as mercadorias; e é isso que Deus vê, mas nenhuma outra pessoa consegue ver. É por isso que os julgamentos de Jesus Cristo sempre nos confundem, enquanto não aprendermos a receber, reconhecer e depender do Espírito Santo. A maneira como as pessoas julgaram Jesus em Seu tempo é a maneira como o julgamos hoje. A maneira como a Bíblia é julgada e Jesus Cristo é julgado é uma indicação de como é o coração se não tivermos recebido o Espírito Santo.

Quando recebemos o Espírito Santo, ficamos na condição dos discípulos após a ressurreição: os olhos deles foram abertos e eles tinham o poder de discernir. Antes de receberem o Espírito Santo, não conseguiam perceber corretamente — simplesmente registravam fisicamente; eles viam que Jesus Cristo era um Ser maravilhoso que acreditavam ser o Messias. Porém, após receberem o Espírito Santo, discerniram o que tinham visto, ouvido e tocado porque seus corações tinham sido conformados; toda a loja interior havia sido reformada e reabastecida pelo Espírito Santo.

Perceba a diferença nas características do indivíduo que faz da cabeça o centro, e da pessoa que faz do coração o centro. Alguém que faz da cabeça o centro se torna um ser intelectual, não avalia as coisas como a Bíblia avalia. Para ele, o pecado é um mero defeito, algo a ser negligenciado e abandonado, e a única coisa que ele despreza é o entusiasmo. Considere o apóstolo Paulo ou qualquer um dos santos do Novo Testamento — a característica da vida deles é o entusiasmo; o coração está em primeiro lugar, não em segundo. Esses são os antípodas da moderna vida intelectual. A mera intelectualidade leva a ausência de sangue e de paixão, ao estoicismo e irrealidade. Quanto mais meramente intelectual uma pessoa se torna, mais irremediavelmente inútil ela é, até degenerar-se em uma mera faculdade de crítica, proferindo os veredictos mais estranhos e selvagens quanto à vida, à Bíblia e ao nosso Senhor.


b) Exportação


“Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura” (MARCOS 7:21-22). Para uma pessoa não espiritual, essa passagem é detestável, de absolutamente mau gosto; nove em cada dez pessoas não acreditam nela porque são grosseiramente ignorantes acerca do coração. Nesses versículos, Jesus Cristo diz, em linguagem moderna: “Jamais foi cometido algum crime que todo ser humano não seja capaz de cometer”. Eu creio nisso? Você crê? Se não crermos, lembre-se de que damos um veredicto direto para o Senhor Jesus Cristo — dizemos-lhe que Ele não sabe do que está falando. Nós lemos que Jesus “…sabia o que era a natureza humana” (JOÃO 2:25), o que significa que Ele conhecia o coração das pessoas; e o apóstolo Paulo enfatiza a mesma coisa: “Não se glorie na humanidade; confie somente na graça de Deus presente em você e nas outras pessoas”. Não admira que Jesus Cristo nos peça para entregarmos a Ele a guarda de nosso coração para que Ele possa enchê-lo com nova vida! Todas as características vistas na vida de Jesus se tornam possíveis em nós ao entregarmos o nosso coração a Ele para sermos plenos do Espírito Santo.


c) Importação


“Então, disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo?” (ATOS 5:3). Um mentiroso pentecostal. Essa é uma declaração terrível, totalmente arrepiante.

Tal mentira nunca fora mencionada com específica profundidade, mas é aqui mencionada por ser realmente possível o coração tentar enganar o Espírito Santo. “Não mentiste aos homens, mas a Deus” (ATOS 5:4). O nosso Senhor se compromete a preencher toda a região do coração com luz e santidade. “Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” (2 CORÍNTIOS 4:6). Ele pode fazer isso? Eu percebo que preciso que isso seja feito? Ou penso que posso realizá-lo por mim mesmo? Essa é a grande frase da atualidade e está crescendo em popularidade — “Eu preciso me realizar”. (Se eu quiser saber como é o meu coração, deixe-me ouvir minha boca, sem restrições, durante cinco minutos!)

Agradeça a Deus por todos os que foram salvos desse caminho perigoso entregando-se ao Senhor Jesus, pedindo-lhe que lhes desse o Espírito Santo e obedecendo à luz que Ele concede!

Trecho retirado do livro Psicologia Bíblica, de Oswald Chambers.