Moisés: “sozinho, não sou capaz” | E pediu para si a morte

Sozinho, não sou capaz de carregar todo este povo! O peso é grande demais! Se é assim que pretendes me tratar, mata-me de uma vez; para mim seria um favor, pois eu não veria esta calamidade!
Números 11.10-15

 
Não são poucas as pregações que já foram feitas a respeito do texto de Números 11, no qual Moisés escolhe 70 líderes de Israel para o auxiliar. Normalmente este texto é utilizado como exemplo da importância de os líderes delegarem funções, sendo aplicado tanto em relação à vida diária como também em relação a pastores e, inclusive, ao ambiente empresarial.

 
Porém, nem sempre o texto é lido e pensado a partir de seu contexto, no qual aparece não somente a queixa do povo a Moisés, mas também — e principalmente — a queixa de Moisés a Deus, que termina com um claro desejo pela morte: “Sozinho, não sou capaz de carregar todo este povo! O peso é grande demais! Se é assim que pretendes me tratar, mata-me de uma vez; para mim seria um favor, pois eu não veria esta calamidade” (Nm 11.14-15, NVT).

 
É essa fala de Moisés que precede a escolha dos 70, de modo que podemos pensar nela como a sua causa direta. Mas o que podemos ver nesta fala de Moisés? O que a Bíblia pode nos ensinar a partir desse relato de alguém tão desesperado que chega a pedir para si a morte?

 

MOISÉS E DEUS: O DESEJO PELA MORTE

 
Em nossa leitura, pode parecer que Moisés exagerou, parece que ele fez uma verdadeira tempestade em um copo d’água! Afinal, para que uma “oração longa e irada” como essa? Para que tanta raiva e desespero? Acontece, porém, que essa foi a forma que Moisés encontrou para desabafar “a sua frustração diante de Deus”. Um desabafo que Deus, ao invés de punir, acolheu e respondeu com amor e cuidado.

 
Ele, cuja ira se ascendeu contra o povo (Nm 11.1 e 10), se mostrou compassivo para com Moisés, cuja reação à revolta do povo foi se dirigir imediatamente a Deus para interceder pelo povo. Sendo assim, precisamos aprender com Deus a ouvirmos e acolhermos aqueles que têm desejo pela morte, a fim de os tratarmos e ajudarmos, agindo como Deus, e interceder a Deus pelo povo, tal como Moisés fez.

 
A resposta de Deus à oração de Moisés pode nos parecer um tanto estranha. Afinal, por associarmos o desejo de morte ao pecado, podemos pensar que a oração foi um grande erro de Moisés, falando o que não deveria ter falado. E já que não podemos negar que ele era um homem de Deus, supomos que foi um equívoco, ou, pelo menos, um exagero, de modo que ele não teria falado seriamente.

 
Mesmo quando não vemos tal pedido como um exagero, como um erro de alguém que se deixou levar pela emoção, podemos acabar vendo-o como uma tentativa de Moisés de convencer a Deus, falando para matá-lo quando na verdade não desejava a morte, mas uma solução para seus problemas. Seria, portanto, somente uma “barganha” em vez de “um desejo sério pela morte”.

 
Porém, uma barganha deste tipo não impede que haja também, ao mesmo tempo, um desejo sério de morte: tal desejo muitas vezes nasce justamente de um desespero pela resolução de problemas, no qual a morte passa a ser vista como uma forma de solução ou uma possível escapatória. A vida, desvalorizada, passa a ser vista somente como uma mercadoria para se barganhar uma solução, que é tudo que importa para aquele que sofre!

 
Há casos, como lembram Kalman J. Kaplan e Matthew B. Schwartz, nos quais o suicídio ocorre em situações frustrantes, “mesmo quando a intenção original não é a morte”. Suicídios que são decorrentes de situações terríveis nas quais as pessoas, por estarem envolvidas por elas, não conseguem enxergar a solução, e veem a morte como se fosse a única forma de escape. Assim, vêm a morrer, por não terem tido a condição de ver alternativas ou mesmo de dimensionar o problema na sua medida correta.

 
Afinal, para aquele que vive uma situação desesperadora, o problema que está sendo enfrentado pode parecer algo gigantesco — mesmo quando não é algo tão grande assim —, e pode parecer algo irremediável, incurável, mesmo que possa ter uma solução simples. E, por isso, a situação é desesperadora: pois, diante de tal problema monstruoso, a pessoa, não conseguindo ver para além deste, perde suas esperanças e deixa de esperar por uma solução, se “des-esperando” e se “des-esperançando”.

 
É necessário, portanto, que aquele que está cativo de desejos suicidas como consequência das dificuldades que enfrenta busque ajuda, a fim de poder olhar para além de si mesmo. Ao invés de desvalorizarmos tais sentimentos de aflição e sofrimento, portanto, precisamos ajudar a quem sofre a olhar para além do problema, indicando que pode haver uma “luz no fim do túnel”.

 
Quando é o caso de uma depressão, tal necessidade se faz ainda mais urgente, uma vez que o impedimento da visualização para além do sofrimento pode ser um problema de ordem não apenas psicológica, mas também psiquiátrica, quando, por desordem química, o cérebro de alguém se torna a sua própria prisão, como nós já vimos acontecer e, infelizmente, um de nós dois já vivenciou.

 
Poderíamos também pensar que a indicação de Moisés de um desejo de morte não passaria de uma reclamação e, inclusive, uma infantilidade. Afinal, há uma ideia de que “as pessoas que ameaçam se matar não farão isso”, porque se o quisessem o fariam, e se falam sobre o suicídio e sua intenção de morte, é porque “querem apenas chamar a atenção”. Isto, porém, é um mito que deve ser combatido, visto que “a maioria dos suicidas fala ou dá sinais sobre suas ideias de morte”.


A verdade é que é “um grande engano pensar que aqueles que ameaçam suicidar-se nunca o farão”. Pelo contrário! A grande maioria dos casos de suicídio são justamente de pessoas que indicaram sua intenção previamente. Cerca de 80% das pessoas que morrem por suicídio em algum momento falaram que se matariam. Ou seja, a verdade é completamente oposta ao mito, e Moisés, tendo falado de seu desejo de morte, se não tivesse sido cuidado por Deus, poderia ter dado cabo de sua vida.

 
Sendo assim, não devemos ver a afirmativa de Moisés como um exagero ou uma barganha. Devemos vê-la como a indicação de uma realidade: que “Moisés, líder de Israel escolhido por Deus, precisou de ajuda”. E, se Moisés precisou de ajuda, não devemos ter vergonha por também precisarmos. Reconhecer a necessidade de sua limitação não foi um ato de fraqueza por parte de Moisés, foi um ato de força e bravura, admitindo perante Deus sua necessidade de ajuda e evitando que pudesse vir a cometer uma ofensa contra Deus ao tirar sua própria vida.

 
É comum que algumas pessoas, as quais têm preconceitos em relação ao trabalho psicológico ou psiquiátrico, tratem a busca de ajuda com desdém, afirmando, como infelizmente já ouvi, que não passa de “frescura”. Algumas vezes, quando filhos, netos ou conhecidos indicam que querem procurar auxílio por meio de tratamento e terapia, tais pessoas não dão valor e pensam ser somente uma forma de eles “chamarem a atenção”.

 
De fato, quando isso ocorre, estas pessoas realmente querem chamar a atenção: querem ser notadas para que, com a ajuda de outros, possam ser tratadas e possam melhorar. Isto pode ser visto, inclusive, nas notas de suicídio, que são as mensagens deixadas por aqueles que pretendem se suicidar antes de o fazerem, as quais têm, entre suas principais motivações, a possibilidade de, por meio destas, de algum modo, “atrair piedade ou atenção”. Ou seja, muitas vezes tais pedidos de ajuda chegam a se materializar em anúncios do suicídio pretendido, os quais podem ser uma última forma da pessoa conseguir a atenção necessária para alguém lhe ajudar.

 
E, por mais contraditório que possa ser, há pessoas que optam pelo suicídio justamente para chamarem a atenção de alguém. Por esta razão, há a recomendação por parte da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e do Conselho Federal de Medicina (CFM) à imprensa para que não carregue reportagens de suicídio com imagens de amigos e familiares impactados, a fim de que não “acabe por encorajar algumas pessoas mais vulneráveis a tomarem o suicídio como forma de chamar a atenção ou de retaliação contra outros”.


Afinal, vendo a importância dedicada àquele que morreu por suicídio, após sua morte, pessoas carentes de atenção podem acabar cogitando que, ao morrerem, finalmente poderão receber tal atenção. No entanto, elas não compreendem que não a receberão, de fato, por já não estarem mais vivas.

Trecho retirado do livro E pediu para si a morte — personagens bíblicos que quase desistiram, de Publicações Pão Diário.