Jó e seus amigos: a empatia no luto

O desejo pela morte, por parte de Jó, não é fruto de sua esperança em Deus, mas é decorrente de seu sofrimento profundo em virtude de suas perdas. Afinal, ele, que tinha tanto — família, saúde e bens — perdeu tudo de uma hora para a outra. E, assim, “Jó conheceu a dor profunda, o vale da aflição, o desejo da morte”. 

Hoje, muitas pessoas estão sofrendo profundamente por causa de perdas terríveis e irreparáveis, à semelhança de Jó: pessoas que perderam sua saúde, sofrendo com doenças crônicas; pessoas que perderam um emprego, e não sabem mais o que vão fazer da vida; ou ainda pessoas que, tal como Jó, perderam “um familiar e sentem como se lhes tivessem arrancado um pedaço de seus próprios corpos”. 

A dor do luto é algo terrível, pois deixa naqueles que ficam uma marca a qual sentimos como se fosse uma ferida incurável. No caso da perda de um filho, não conseguimos nem imaginar o quão forte esta dor pode se tornar, a não ser quem já passou por isso. E Jó sentiu essa dor na pele como ninguém: ele, que se preocupava dia e noite com seus filhos (cf. Jó 1.5), como um pai amoroso e dedicado, perdeu os dez — sete filhos e três filhas — em um só dia.

Muitas vezes isto é o melhor que podemos fazer em um momento de luto: estar junto com aquele que sofre.

E pediu para si a morte, de Publicações Pão Diário (2022)

A dor de Jó foi vista por seus amigos, os quais foram até ele a fim de “consolá-lo e animá-lo” (Jó 2.11). Diante de um homem com tamanho sofrimento, os amigos de Jó se compadeceram, sofrendo junto com ele: “Choraram alto, rasgaram seus mantos e jogaram terra ao ar, sobre a cabeça” (Jó 2.12). 

Viram que não poderiam fazer nada mais do que estar junto com Jó, compartilhando sua dor. Por isso “sentaram-se no chão com ele durante sete dias e sete noites”, de modo que, durante esse tempo, eles “não disseram nada, pois viram que o sofrimento de Jó era grande demais” (Jó 2.13). Muitas vezes isto é o melhor que podemos fazer em um momento de luto: estar junto com aquele que sofre. Muitas vezes a presença basta, e as palavras devem ser evitadas. 

Em sua experiência pela perda de sua esposa, C. S. Lewis afirmou que o luto que vivia era como o medo, ele não estava com medo, mas a sensação era a mesma. Aquela sensação de apreensão, que tira a pessoa da realidade, e que a impede, por exemplo, de “assimilar o que qualquer pessoa diz”. Mesmo assim, ele manteve o desejo de que outros estivessem ao seu redor. Um desejo que indica uma necessidade latente naquele que precisa da presença de outros para dirimir (mesmo que seja impossível de forma completa) a dor pela falta de alguém. 

Mesmo C. S. Lewis, considerado como um grande apologeta do século 20, sentiu-se sozinho e desamparado, e viu-se em seu luto perguntando: “onde está Deus?”. Segundo ele, este foi um sintoma do luto: um sentimento de que, ao voltar-se para Deus no momento de maior sofrimento, o que recebia da parte d’Ele era “uma porta fechada na sua cara”.

Nossos sentimentos fazem parte de nós, mas somos nós que decidiremos o que faremos com eles.

E pediu para si a morte, de Publicações Pão Diário (2022)

Da mesma forma Jó, em seu processo de luto, questionou a Deus e se sentiu ignorado por Ele. Um questionamento quase natural daquele que sofre a dor do luto, como fruto de uma impulsividade quase incontrolável, como lembra o próprio Jó: “Se fosse possível pesar minha aflição e pôr numa balança meu sofrimento, pesariam mais que toda a areia do mar; por isso falei de modo impulsivo” (Jó 6.2-3). 

Assim, pode-se entender que o desejo pela morte, por parte de Jó, era um sentimento expresso com sinceridade, e não com exagero. Era um sentimento resultante do desespero decorrente do luto, cuja dor pela morte faz aquele que sofre desejá-la: “Quem dera meu pedido fosse atendido, e Deus concedesse meu desejo. Quem dera ele me esmagasse, estendesse a mão e acabasse comigo” (Jó 6.8-9). 

Porém, um desejo, por mais natural que seja, não deve ser assumido como autoridade máxima na nossa vida. Como bem lembra Albert N. Martin, escrevendo sobre o luto a partir de sua experiência de perda de sua esposa, Marilyn: “Deus não criou nossas emoções para que tenham autoridade final sobre nós”. Nossos sentimentos fazem parte de nós, mas somos nós que decidiremos o que faremos com eles. Uma dor provocada pelo luto pode ser assumida como uma razão para o desespero. Mas também pode ser transformada em um sofrimento para a glória de Deus, servindo inclusive como forma de ajuda a outros que sofrem. 

E pediu para si a morte — personagens bíblicos que quase desistiram

Para além dos casos de suicídio na Bíblia, há também os casos de prevenção ao suicídio: pessoas que quase desistiram, chegando ao ponto de pedirem para si a morte, mas que foram amparadas e cuidadas por Deus.

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