Elias: “não sou melhor” — E pediu para si a morte

“Já basta, Senhor”, disse ele. “Tira minha vida, pois não sou melhor que meus antepassados que já morreram.”
1 Reis 19.4

 
Quando lemos a história de Elias, ao chegarmos no capítulo 19 de 1 Reis, vemos algumas aparentes contradições: Elias, que havia tido a coragem de “bater de frente” com o rei de Israel, Acabe, profetizando seca (1 Rs 17) e até mesmo respondendo ao rei (1 Rs 18.17-18), agora se encontra fugindo com medo. Ao mesmo tempo, Elias, que “teve medo e fugiu para salvar a vida” (1 Rs 19.3), logo em seguida acaba “pedindo para morrer” (1 Rs 19.4). Não é estranho?

 
É natural que, na leitura, caso a gente não conheça toda a história, ao chegar nesta parte, venhamos a nos perguntar: “Ele enfrentaria Jezabel com a mesma coragem demonstrada no capítulo anterior?”. Mas não, ele não enfrentou, pelo menos não naquele momento. E isso é surpreendente quando lemos pela primeira vez! E mesmo para nós, que já conhecemos a história, é, no mínimo, estranho. Como explicar que alguém tão corajoso, que ria e zombava de seus inimigos (1 Rs 18.27), que viu milagres e o poder de Deus diante dele, teve medo e fugiu?

 
Pode parecer que Elias tinha coragem para encarar o rei Acabe, mas tinha medo de desafiar a rainha, Jezabel. Afinal, a fuga de Elias se deu logo depois que ela prometeu que o mataria (1 Rs 19.2). Nesse sentido, muitos pregadores chegam até a falar que uma mulher pode dar mais medo do que um homem, e assim por diante. Mas isso não passa de suposições, já que o texto não fala nada disso.

 
O texto indica que Elias “teve medo e fugiu para salvar a vida” (1 Rs 19.3). Porém, para entendermos a razão desse medo, e, principalmente, do desejo de morte que Elias apresenta, precisamos ouvir o próprio Elias. Afinal, ninguém melhor do que ele para descrever a sua dor e o seu medo. Sentado embaixo de uma árvore, Elias orou a Deus dizendo: “‘Já basta, Senhor’, disse ele. ‘Tira minha vida, pois não sou melhor que meus antepassados que já morreram’” (1 Rs 19.4).

 
Mais importante do que o medo, aqui, é a frustração que Elias sentiu. Afinal, seu medo de morrer não o impediu de pedir a morte. Seu maior medo, portanto, não era o de morrer, mas o de ser morto por seus inimigos, selando uma derrota com a qual ele sofria. Pois, talvez “ser morto pela rainha soasse como vitória do baalismo”, desfazendo assim todo seu trabalho em mostrar que Deus é maior que Baal. O seu medo era o de que, apesar de ter vencido seus inimigos no Monte Carmelo, Elias terminasse como derrotado.

A justificativa de seu pedido pela morte — “pois não sou melhor que meus antepassados que já morreram” —, como bem destacou Karina Coleta, “oferece indícios de expectativas frustradas”, e “sugere que Elias se considerava acima da média”. Ao que parece, Elias se deprimiu após um drástico choque de realidade. Após perceber que ele, que havia feito cair fogo do céu, não havia alcançado o verdadeiro prêmio que estava em jogo: o coração do povo. Ele, o grande profeta, não era assim tão grande. Afinal, por mais que tivesse vencido uma batalha no Monte Carmelo, parecia estar perdendo a guerra e agora “sentia um grande fracasso”.

 
Elias se mostra “exausto e profundamente desapontado pela derrota que se seguiu logo após seu momento de ver a vitória”, pois entende que seu sucesso no Carmelo era apenas na aparência. Era uma verdadeira ilusão. E, por mais que ele estivesse com a razão, tentando mostrar ao povo quem era o verdadeiro Deus, o povo de Israel permanecia do lado de Jezabel, adorando Baal.

 
Por isso, quando Elias explica sua frustração a Deus, duas vezes, com as mesmas palavras, vemos alguém que se sente derrotado apesar do grande esforço: após indicar que serviu a Deus com zelo, Elias diz ao Senhor que “os israelitas quebraram a aliança contigo, derrubaram teus altares e maltrataram todos os teus profetas” (1 Rs 19.10; 19.14). Assim, Elias se esquiva de seu erro — não fala que fugiu nem que teve medo —, e apenas destaca sua qualidade e dedicação, em claro contraste com a infidelidade e maldade do povo.

Trecho retirado do livro E pediu para si a morte — personagens bíblicos que quase desistiram, de Publicações Pão Diário.