Disse Manoá a sua mulher: Certamente, morreremos, porque vimos a Deus. Porém sua mulher lhe disse: Se o Senhor nos quisera matar, não aceitaria de nossas mãos o holocausto e a oferta de manjares, nem nos teria mostrado tudo isto, nem nos teria revelado tais coisas.  —Juízes 13:22-23

A primeira observação que surge da história de Manoá e sua esposa é a seguinte: frequentemente oramos por bênçãos que nos farão estremecer quando as recebermos. Manoá havia pedido que pudesse ver o anjo e o viu. Em resposta a seu pedido, Aquele que é maravilhoso cedeu e revelou-se uma segunda vez, mas a consequência foi que o bom homem ficou repleto de espanto e consternação e, voltando-se para sua esposa, ele exclamou: “…Certamente, morreremos, porque vimos a Deus…”. Irmãos, temos sempre conhecimento do que estamos pedindo quando oramos? Estamos implorando por uma bênção incontestável e, no entanto, se soubéssemos o modo pelo qual tal bênção deve necessariamente chegar, deveríamos, talvez, hesitar antes de insistirmos em nosso caso. Vocês muito têm rogado por crescimento em santidade. Você sabe, irmão, que, em praticamente todos os casos, isso significa aflição acrescida? Pois não fazemos progresso considerável na vida espiritual exceto quando o Senhor se agrada de testar-nos na fornalha e purificar-nos com fogo intenso. Vocês desejam a misericórdia nessa condição? Estão dispostos a aceitá-la conforme Deus se agrada de enviá-la e dizer: “Senhor, se o crescimento espiritual implica prova, se significa uma longa doença no corpo, se significa profunda depressão da alma, se resulta em perda de propriedade, se envolve o afastamento de meus amigos mais queridos, ainda assim não tenho reservas, antes incluo na oração tudo o que é necessário para o bom fim. Quando eu digo: ‘Santifica-me inteiramente, espírito, alma e corpo’, deixo o processo à mercê de Sua apreciação.”? 

Esse é o modo do Senhor de responder a oração por fé e graça. Ele vem com cajados de disciplina e nos torna perspicazes por meio de nossas tolices, pois apenas assim Ele pode libertar nossa mente infantil delas. Ele vem com arados incisivos e dilacera o solo, porque só assim podemos produzir uma colheita para o Senhor. Ele vem com ferros quentes e nos marca até o coração, e quando indagamos: “Por que tudo isso?”, esta resposta vem a nós: “Foi isso que você pediu, essa é a maneira pela qual o Senhor responde os pedidos que você faz”. Talvez, neste momento, o sentimento de desfalecimento que alguns de vocês vivenciam, que lhes faz temer com a certeza de que morrerão, pode ser explicado por suas próprias orações. Eu gostaria que vocês olhassem para seus pesares atuais à luz dessa probabilidade e dissessem: “Afinal de contas, vejo que agora meu Deus me deu exatamente o que eu buscava em Suas mãos. Eu pedi para ver um anjo e o vi; e agora ocorre que meu espírito está perturbado em meu interior”.

Uma segunda observação é esta: muito frequentemente a profunda prostração de espírito é precursora de uma alguma notável bênção. Foi para Manoá e sua esposa a mais elevada alegria concebível em vida, o auge de sua pretensão, que fossem pais de um menino por quem o Senhor começaria a libertar Israel. Eles ficaram cheios de alegria — uma alegria inexprimível — com a ideia dessa possibilidade, mas, no momento quando as boas-novas foram comunicadas pela primeira vez, Manoá ao menos ficou tão pesado de espírito que afirmou: “…Certamente, morreremos, porque vimos a Deus…”. Tome como regra geral que céus opacos são previsão de chuva de misericórdia. Espere doce favor quando vivenciar aflição brutal. Vocês não se lembram, com relação aos apóstolos, que eles temeram ao entrarem na nuvem no Monte Tabor? E, no entanto, foi nessa nuvem que viram seu Mestre transfigurado. E vocês e eu já muito tememos a nuvem em que estávamos entrando, embora ali estivéssemos para ver mais de Cristo e de Sua glória do que jamais contemplamos antes. A nuvem que vocês temem é a parede externa do quarto secreto em que o Senhor se revela.

Antes que você possa carregar Sansão em seus braços, Manoá, você deve ser levado a dizer: “Certamente morreremos”. Antes que o ministro pregue a Palavra de Deus a milhares, ele deve ser esvaziado e ser levado a estremecer sob a compreensão de inabilidade. Antes que o professor de Escola Dominical conduza suas crianças a Cristo, ele deve ser levado a ver o quão fraco e insuficiente é. Eu realmente creio que, sempre que o Senhor está prestes a nos usar em Sua família, Ele nos toma como um prato, nos esfrega muito bem e nos coloca na prateleira e então, em seguida, Ele nos retira e ali coloca Sua própria carne celestial, com a qual supre a alma de outros. Deve haver, como regra, um esvaziar, um virar de cabeça para baixo e um estabelecer em um lado específico, antes que a grande bênção chegue. Manoá sentiu que deveria morrer e, ainda assim, não poderia, pois viria a ser pai de Sansão, o libertador de Israel e o terror da Filístia.

Permitam-me oferecer uma terceira observação, que é a seguinte: uma grande fé é, em muitos casos, sujeita a ajustes. Que grande fé Manoá tinha! Sua esposa era estéril, porém, quando a ela foi dito pelo anjo que geraria um filho, Manoá creu, embora nenhum mensageiro celestial tivesse vindo pessoalmente a ele. Então creia que ele não queria ver o homem de Deus uma segunda vez para que lhe fosse dito que isso ocorreria, mas apenas para ser informado sobre como educar a criança. Apenas isso. “Bem”, diz o velho Bispo Joseph Hall, “seja pai do forte Sansão, aquele que forte fé tem”. Manoá de fato tinha uma fé forte e, contudo, aqui está ele afirmando em aflição: “…Certamente, morreremos, porque vimos a Deus…”. Não julgue um homem por qualquer palavra ou ato isolado, pois, se o fizer, você certamente se enganará. Covardes ocasionalmente são corajosos, e os homens mais corajosos são, algumas vezes, covardes. Há homens que seriam covardes ainda piores na prática se fossem menos covardes do que são, visto que um homem pode ser covarde demais para confessar sua fraqueza. O trêmulo Manoá era tão franco, honesto e sincero que expressou seus sentimentos. Uma pessoa mais diplomática os teria ocultado. Apesar de crer plenamente no que fora dito por Deus, ainda assim, ao mesmo tempo estava sobre ele a dúvida como resultado de sua crença na tradição: “…Certamente, morreremos, porque vimos a Deus…”.

Novamente, outra observação é que é grande misericórdia ter um companheiro cristão a quem recorrer para conselho e consolo sempre que sua alma estiver deprimida. Manoá se casara com uma mulher excelente. Ela era a melhor entre os dois em termos de julgamento saudável. Ela era o vaso mais fraco por natureza, mas era aquela com fé mais forte, e provavelmente por isso o anjo foi enviado a ela, pois os anjos se agradam mais de conversar com aqueles que têm fé e, se puderem escolher sua companhia, (e a esposa tem mais fé que o marido) visitarão a esposa antes de seu cônjuge, porque amam levar as mensagens de Deus àqueles que as receberão com confiança. Ela era, evidentemente, repleta de fé e, então, quando seu marido, trêmulo, disse: “…Certamente, morreremos, porque vimos a Deus…”, não creu em tal dedução apreensiva. 

Deus, o Espírito Santo, nos auxiliará; sigamos o argumento da esposa de Manoá e veremos se também não confortará o nosso coração. Essa boa mulher tinha três dobras em seu cordão. Uma era: o Senhor não pretende matar-nos, pois aceitou nossos sacrifícios. A segunda e a terceira eram: Ele não pretende matar-nos, caso contrário, Ele não teria, em tal momento, nos revelado o que revelou nem nos dito coisas como estas. Então as três dobras de seu cordão eram sacrifícios aceitos, revelações graciosas e promessas preciosas.

Sermões sobre mulheres do Antigo Testamento

Artigo retirado de trechos do livro

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